EM CACOS…
Sabes aquela jarra que a nossa mãe gostava muito e que nós, em criança, no meio de uma diabrura qualquer, partimos?… E, de seguida, para não levarmos um sermão de meia-noite ou algo ainda melhor, vamos a correr procurar cola para tentar unir bocados dos cacos da jarra, a ver se o “crime” passa ao lado ou, pelo menos, para ganhar tempo para outras soluções. Pois… acho que se calhar já todos passámos por algo deste género: colocar em cacos algo que estava inteiro.
E a questão é esta: tu sabes que a tua mãe não deu conta de que aquela jarra já não é o que era e que nunca mais vai ser a mesma. Tu remediaste a situação, mas sabes que aquilo já não está igual ao que era. Aparentemente não se passou nada, mas na realidade aconteceu tudo. Mesmo que pareça igual, já não tem a sua forma original e está mais fragilizada. Tu sabes que qualquer toque com mais força vai voltar a colocar em cacos a jarra que arranjaste com um bocadinho de cola. Pois… e lá vem o dia em que a tua mãe pega na jarra para limpar e, do nada, descobre as fissuras dos cacos unidos por ti e dá conta do que aconteceu.
Sabes… muitas vezes olhamos à volta e parece tudo bem, mas na realidade alguém usou uma cola melhor que a tua para ocultar os cacos que em si tem.
É isso… vamos colando até dar. Há cacos e cacos. Na realidade, somos todos feitos de cacos mais ou menos bem unidos, que nos vão permitindo seguir em frente. Uma coisa é certa: toda a vez que algo nos coloca em cacos, por melhor que seja a cola, nada volta a ser como antes. A forma original nunca mais volta. A realidade é a possível, face à quantidade de vezes que os cacos foram unidos. E, quanto mais cacos, mais afastado da forma original vais ficar.
É… em cacos. Uma realidade que tu sabes bem. E umas vezes estás no papel da mãe e outras no papel do filho. Todos já deixámos algo em cacos, todos já tentámos remediar, mas é verdade também que nem sempre se sabe os que deixamos em cacos ou os cacos que em nós temos… até ao dia em que pegas na jarra e ela se desfaz com um toque que não era suposto te deixar a jarra em cacos nas tuas mãos.
É… ninguém sabe os cacos que os outros têm em si, nem as vezes que já foram alvo de camadas de cola para tentar unir o que se partiu.
Sidónio Faria









