SOLIDÃO

SOLIDÃO…

Não é só o estar só…

A verdadeira solidão vem de dentro de ti… do mais fundo que há em ti…  

é estares rodeado de gente que até se relaciona e interage normalmente contigo,  

mas a distância entre o estar só, sozinho, e o estar em solidão  

é como daqui à lua…  

é como se existisses numa bolha em que todos te veem mas ninguém te toca.

Sabes os neurónios que se ligam a outros pelas sinapses?  

Solidão é seres um neurónio no meio de outros milhões,  

sem sinapses que te liguem a outros neurónios…  

que te liguem a alguém — mesmo que esse alguém sejam todos os que vês todos os dias  

e para quem sorris e falas normalmente.

Solidão é um vazio no coração de alguém…  

esse vazio está sempre lá, mesmo rodeado de gente e de afazeres…  

é como se habitasses numa cápsula no espaço cósmico, rodeado de vazio  

e triliões de estrelas à volta,  

e de lá saindo para cumprires as tuas obrigações… os teus deveres…  

o normal do dia a dia.

Solidão é estar quieto e calado quando o que devias era romper o silêncio e ligares-te…  

mas deixas-te quieto porque acaba por ser mais confortável  

do que a frustração de sinapses que não existem para proporcionar a ligação.

Solidão é um recurso que te mantém em órbita  

num mundo cada vez mais… me, myself and I…

Sidónio Faria



EM CACOS…

EM CACOS…

Sabes aquela jarra que a nossa mãe gostava muito e que nós, em criança, no meio de uma diabrura qualquer, partimos?… E, de seguida, para não levarmos um sermão de meia-noite ou algo ainda melhor, vamos a correr procurar cola para tentar unir bocados dos cacos da jarra, a ver se o “crime” passa ao lado ou, pelo menos, para ganhar tempo para outras soluções. Pois… acho que se calhar já todos passámos por algo deste género: colocar em cacos algo que estava inteiro.

E a questão é esta: tu sabes que a tua mãe não deu conta de que aquela jarra já não é o que era e que nunca mais vai ser a mesma. Tu remediaste a situação, mas sabes que aquilo já não está igual ao que era. Aparentemente não se passou nada, mas na realidade aconteceu tudo. Mesmo que pareça igual, já não tem a sua forma original e está mais fragilizada. Tu sabes que qualquer toque com mais força vai voltar a colocar em cacos a jarra que arranjaste com um bocadinho de cola. Pois… e lá vem o dia em que a tua mãe pega na jarra para limpar e, do nada, descobre as fissuras dos cacos unidos por ti e dá conta do que aconteceu.

Sabes… muitas vezes olhamos à volta e parece tudo bem, mas na realidade alguém usou uma cola melhor que a tua para ocultar os cacos que em si tem.

É isso… vamos colando até dar. Há cacos e cacos. Na realidade, somos todos feitos de cacos mais ou menos bem unidos, que nos vão permitindo seguir em frente. Uma coisa é certa: toda a vez que algo nos coloca em cacos, por melhor que seja a cola, nada volta a ser como antes. A forma original nunca mais volta. A realidade é a possível, face à quantidade de vezes que os cacos foram unidos. E, quanto mais cacos, mais afastado da forma original vais ficar.

É… em cacos. Uma realidade que tu sabes bem. E umas vezes estás no papel da mãe e outras no papel do filho. Todos já deixámos algo em cacos, todos já tentámos remediar, mas é verdade também que nem sempre se sabe os que deixamos em cacos ou os cacos que em nós temos… até ao dia em que pegas na jarra e ela se desfaz com um toque que não era suposto te deixar a jarra em cacos nas tuas mãos.

É… ninguém sabe os cacos que os outros têm em si, nem as vezes que já foram alvo de camadas de cola para tentar unir o que se partiu.

Sidónio Faria


MÁGOAS

MÁGOAS…

As mágoas que se guarda…

Mágoas são cicatrizes emocionais…

Com 55 anos muitas foram as experiências acumuladas ao longo destes mais de meio século… muitas vezes levamos abalos que não se  esperava e de quem não se esperava… são abalos… que mexem no teu equilíbrio emocional e abalam sentimentos… e que por vezes até te fazem pensar na forma como exististe até então… algumas coisas provocadas por coisas tuas que para ti não eram nada mas que para outrem representaram o inaceitável… sem descontos, sem ver o outro lado, sem calçar o sapato do outro nem tão pouco tentar sequer perceber o porquê de algo ter sido assim e não assado, sendo até alvo de juízos de valor… e vai um dia descobres que aquilo que para ti era normal para outros era o inaceitável… tudo às vezes é nada… e nada é tudo… a mágoa vem do nada que é tudo num momento para alguém… porque tu não foste capaz de ver o que tinhas de ver..  e inclusivamente a questionar valores como honestidade, verdade, lealdade, gratidão, dedicação e etc… tudo passa… mas fica… fica a mágoa… 

Tenho mágoas sim… mágoas de magoar quem não deveria ter magoado… mágoas de ter falhado com quem não deveria ter falhado, mágoas de nalgumas vezes ter dito sim em vez de não, mágoas de não ter dado importância ao que tinha importância, mágoas de não ter sido capaz de verbalizar um “perdoa-me porque não estive bem”, mágoas por amizades perdidas sem ter sido capaz de as recuperar, mágoas por palavras ditas da forma que foram ditas perdendo razão na razão que tinha, mágoas de ter provocado sofrimento em quem mais me queria e me amava, mágoas por não ter deixado uma boa impressão em quem em mim depositou muito de si…. 

Mágoas… carrega-se no órgão do amor… porque é lá que fica a marca… aquela cicatriz que não consegues tirar mesmo que tudo passe e fique esclarecido… não é rancor… é mágoa e já tu não podes voltar atrás no tempo e fazer com que tudo tenha sido diferente…e muitas vezes das 24 horas de um dia , 6 delas foram passadas na tua cama para estares pronto para mais 24h que te vão garantir que vivas o que tens de viver e da forma como vives… pouco tempo ficou para corrigires o que nem te apercebeste que tinhas de corrigir… um perdão que não foi pedido… um “desculpa percebeste mal” que não disseste… um tempo que não foi vivido com quem deverias ter vivido…,

Trago mágoas de escolhas que já não podem ser outras mas… já foi…  foram muitas as ausências em momentos assinalados, notados mas ultrapassados….de início fazes falta mas depois a tua ausência é o normal porque o dever manda que assim seja, cada um com os seus e as pessoas têm de se adaptar e o normal é a tua ausência… Trago mágoas de escolhas que se fossem hoje outras escolhas faria…. Trago mágoas como todos trazemos mas acredita meu amigo que  a maior das mágoas é teres sido a mágoa de alguém que  habita no teu coração… e tudo passa e há que lidar com a mágoa que fica…  há que continuar tentando aprender com erros que provocam mágoa tanto no outro como em ti… vivendo e aprendendo… e cada um com as suas mágoas que só se amenizam com o mais nobre dos sentimentos… o AMOR e o AMAR…


Sidónio Faria


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